como adolescentes, governando famílias, promovendo-se assim confusões intergeracionais e colapso
dos esteios simbólicos (Bruzzone, 2014; Recalcati, 2013/2022b).
Nesse contexto, Bruzzone (2014) salienta que tais confusões intergeracionais se devem a
transformações socioculturais no status quo da pós-modernidade, implicando um processo de
adultização precoce da infância, da adolescência e de infantilização da vida adulta. Ademais, ela
reflete o que o psiquiatra Pietropolli Charmet defende sobre o narcisismo da juventude:
[...] o narcisismo dos jovens deve-se à transformação dos códigos afetivos familiares, em
particular a passagem da família ética para a família afetiva, ou seja, da família que assumiu como
sua principal tarefa a transmissão de normas e valores, para a família que considera seu principal
dever proporcionar afeto e segurança. Esta família “maternalizada” perdeu o universo simbólico
paterno, ou seja, tudo o que se refere a norma, limite, responsabilidade, transcendência. Os pais
tornaram-se companheiros, mães amigas e confidentes, [mas não conselheiros (as)] [...] (Charmet, s.
d., como citado em Bruzzone, 2014, p. 67, grifo nosso).
Na obra “Educação em Viktor Frankl: entre o vazio existencial e o sentido da vida”, Miguez
(2015) corrobora Frankl ao testemunhar que a perda dos universais de sentido que, por gerações,
fundamentaram a “família ética” (evocando Charmet, s. d., como citado em Bruzzone, 2014, p. 67)
torna-se raiz do vazio existencial e da falência das possibilidades educativas e de sentido. Isso, por
sua vez, facilita o surgimento da “família afetiva” (evocando Charmet, s. d., como citado em
Bruzzone, 2014, p. 67), que baseia seus esteios no “pensamento mole da condição pós-moderna, [em
que] nada parece ter mais sentido” (evidenciando Forte, 2003, como citado em Miguez, 2015, p. 10).
Portanto, “as crianças, [adolescentes] não podem correr riscos, não podem cair, não podem
magoar-se, [não podem ser frustradas], não devem sofrer, não devem cansar, devem ser
continuamente defendidas e protegidas [...]” (Bruzzone, 2014, p. 62, grifo nosso), por pais
evaporados e infantilizados que temem “perder” a amizade dos filhos e suas companhias. Esta
constatação, com efeito, retrata o cenário familiar investigado, ao espelhar‑se no recorte
sintomático do pai de família, que alega resistir em corrigir os filhos por temer magoá‑los.