Revista Subjetividad y Procesos Cognitivos
ISSN electrónico: 1852-7310
Vol. 29, Nro. 1 “Psicología y Espiritualidad”
(enero-junio, 2026)
Fecha de Recepción: 11 de diciembre del 2025
Fecha de Aceptación: 1 de marzo del 2026
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Do Desespero Existencial À Instauração Da Lei Da Palavra Para A Realização De Sentidos
Em Família: Um Estudo De Caso
From Existential Despair To The Establishment Of The Law Of The Word For The Realization
Of Meaning In The Family: A Case Study
Jurandir de Sousa Corrêa Júnior, Centro Universitário Univinte, Brasil
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4966-5287
Correo electrónico: juniorsousa.psi@gmail.com
ARK CAICYT: https://id.caicyt.gov.ar/ark:/s18527310/mtwahntaw
Resumo
Este estudo de caso qualitativo, de delineamento clínico-psicoeducativo e existencial,
descreve o percurso terapêutico de uma família da pós-modernidade marcada pela fragilidade da
função paterna, pela adultização negligente da infância e da adolescência e pelo predomínio do gozo
hedonista sobre o desejo fundante. Fundamentado na Logoterapia de Viktor Frankl, na crítica
psicanalítica de Massimo Recalcati ao ocaso do Nome-do-Pai e em aportes da Terapia Cognitivo-
Comportamental e da hermenêutica bíblica, buscou-se compreender o vazio existencial e as
neuroses sociogênicas do clã, intervindo por meio de uma “educação para a responsabilidade”. A
família nuclear, composta por quatro membros, foi acompanhada em 29 sessões domiciliares,
alternando atendimentos com pais, filhos e o grupo familiar, analisados hermeneuticamente. Os
resultados indicam que a restauração da autoridade parental e a desconstrução da adultização
precoce favoreceram a reinstauração da Lei da Palavra e a conversão do vácuo existencial em espaço
de realização de valores.
Palavras-chave
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Família afetiva; Função paterna; Vácuo existencial; Logoterapia; Educação para a
responsabilidade.
Resumen
Este estudio de caso cualitativo, con diseño clínico-psicoeducativo y existencial, describe el proceso
terapéutico de una familia posmoderna marcada por la fragilidad de la función paterna, la
adultización negligente de la infancia y la adolescencia, y el predominio del goce hedonista sobre el
deseo fundante. Basado en la logoterapia de Viktor Frankl, la crítica psicoanalítica de Massimo
Recalcati al ocaso del Nombre-del-Padre, aportes de la terapia cognitivo-conductual y la
hermenéutica bíblica, el estudio buscó comprender el vacío existencial y las neurosis sociogénicas del
grupo familiar mediante una educación para la responsabilidad. La familia, integrada por cuatro
miembros, fue acompañada en 29 sesiones domiciliarias. Los resultados indican que la restauración
de la autoridad parental y la deconstrucción de la adultización precoz favorecieron la reinstauración
de la Ley de la Palabra y la transformación del vacío existencial en un espacio de realización de
valores.
Palabras clave
Familia afectiva; función paterna; vacío existencial; logoterapia; educación para la responsabilidad.
Abstract
This qualitative case study, employing a clinical, psychoeducational, and existential design,
examines the therapeutic process of a postmodern family characterized by a weakened paternal
function, the negligent adultification of childhood and adolescence, and the predominance of
hedonistic gratification over foundational desire. Informed by Viktor Frankl’s Logotherapy, Massimo
Recalcati’s psychoanalytic critique of the decline of the Name-of-the-Father, and by contributions
from Cognitive-Behavioral Therapy and biblical hermeneutics, the study aimed to elucidate the
family’s existential vacuum and sociogenic neuroses, implementing an intervention framed as an
“education for responsibility.” The nuclear family, consisting of four members, engaged in 29 home-
based sessions, with alternating encounters involving parents, children, and the family as a whole,
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which were subsequently submitted to hermeneutic-phenomenological analysis. Findings indicate
that the restoration of parental authority and the deconstruction of premature adultification
supported the reestablishment of the Law of the Word and the transformation of existential
emptiness into a space for the realization of values.
Keywords
Affective family relationships; Paternal function; Existential vacuum; Logotherapy; Education
for responsibility.
1 INTRODUÇÃO
O que é o homem senão uma autodeterminação ambulante que vive de escolhas em sua
breve trajetória, desde o berço até a sepultura inevitável? (Heimsoeth, 1982). Aliás, não é ele um
ánthropos, um ser único e irrepetível que vive a buscar sentido na seara da existência, lançado
plenamente às vicissitudes da temporalidade que o desafia entre o ser e o dever-ser, como revelara
o fundador da terceira escola psicoterápica de Viena? Com efeito, conforme Viktor E. Frankl, pai da
Logoterapia e Análise Existencial, o homo humanus é aquele que ao ser catapultado à existência, se
depara às factualidades e faculdades que a vida apresenta, tendo que escolher, deliberar, dispor,
criar, vivenciar, e se posicionar perante as contingências terrenas. Assim, esta categoria humana
torna-se a base axiomática que compõe a antropologia frankliana, que pressupõe a unicidade e a
irrepetibilidade de um ser ontológico (tri)dimensional; isto é, um sujeito sui generis que apresenta
uma natureza híbrida, permeada pelas dimensões biológica, psicológica e noética – espiritual (Frankl,
1969/2011).
Destarte, o atributo humano demasiadamente humano, decorre de um princípio cósmico
livre e inteligente (nous – espírito), que se expressa através da liberdade humana de (ex)istir, ou seja,
de emergir de si mesmo, rumo ao autodistanciamento e à autotranscendência (Frankl, 1946/1995).
Por isso, a liberdade da vontade, um dos pilares fundamentais da logoteoria frankliana, presume que
embora o homem seja confrontado por circunstâncias biopsicossociais, não é alienado em sua
essência, haja vista seu potencial noodinâmico que o impulsiona a contemplar sua vontade de
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sentido por intermédio da busca incessante à realização de sentidos. Isso ocorre por meio da
liberdade que lhe é inerente, da consciência que o guia e da responsabilidade que o desafia (Frankl,
1969/2011).
Noutra perspectiva teórica, quem é o homem senão uma criatura vagante, marcado pela
falta no deserto da existência, carecendo de algo que o guie, que o preencha, que o estimule ao
desejo da vivência? Ademais, não é o vazio desta falta, condição essencial para que uma Lei da
Palavra se instaure e oriente, estruture a subjetividade humana, conforme a visão de Recalcati
concernente às raízes bíblicas da Psicanálise? (Recalcati, 2022a). De fato, na ocidentalidade pós-
moderna, observa-se a instauração das faltas paterna e da Lei da Palavra, a evaporação de universais
de sentido e, por conseguinte, a eclosão de um vazio existencial sem precedentes (Frankl,
1977/1987; Recalcati, 2022a).
Deveras, a família humana em sua extensa trajetória, sempre careceu da busca de sentido a
fim de preservar sua coesão e existência ao longo da história. No entanto, na contemporaneidade
das profundas crises sociais, do vazio existencial e da ausência de sentido que solapam as estruturas
familiares, promovendo neuroses sociogênicas e existenciais, torna-se necessário para além de
soluções clínicas, soluções educativas (Bruzzone, 2014; Frankl, 1977/1987). Isto é, atitudes
educativas que ao aguçar a consciência orientem ao sentido da vida; o que Viktor Frankl denominou
de educação para a responsabilidade (Frankl, 1969/1988). Assim, em tempos de “narcisismo e da
hipertrofia do ego, a educação é possível desde que os pais saibam recuperar o sentido de limite e
responsabilidade, e voltar a testemunhar o valor da autotranscendência [em família]” (Bruzzone,
2014, p. 57).
Nesse contexto, são de fundamental importância estudos que visem explorar tais fenômenos
psicossociais e culturais no âmbito familiar, com o intuito de descrever e quiçá compreender
panoramas de sofrimento e desajustes familiares, buscando neles atuar, viabilizando, portanto,
saúde psicossocial. Desse modo, o estudo de caso apresenta-se como um procedimento de pesquisa
científica de relevância considerável, consoante à compreensão de fenômenos [psicossociais]
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complexos que requisitem uma investigação que preserve suas características holísticas e esclareça
os processos e mecanismos significativos (Yin, 1984/2001).
Considerando isso, este estudo de caso apresenta uma intervenção clínica familiar de cunho
psicossocial que se deu entre os meses de outubro de 2023 e novembro de 2024, na cidade de
Atlântida (nome fictício) – SC, Brasil. Durante o período, o terapeuta responsável pelas mediações
em determinado grupo parental, conduziu o caso no sentido de promover o aguçar da consciência
grupal e individual, a fim de possibilitar o desenvolvimento da educação para a responsabilidade em
família; atributo este, fragilizado pela inércia e falta de autoridade paterna, bem como pela carência
de limites à prole.
Ademais, o processo interventivo foi fundamentado em aspectos teórico-práticos da
psicanálise, logoterapia e análise existencial, terapia cognitivo-comportamental, tal como em saberes
diversos que tangenciaram enfoques histórico-filosóficos, teológicos e pedagógicos; buscando-se
dessa forma, facilitar a ampliação do foco de entendimento e compreensão dos assuntos abordados
na terapia familiar.
Em suma, este estudo visa apresentar um panorama interventivo de acompanhamento
familial, demonstrando as peculiaridades do processo psicoeducativo, tal como estratégias de
atuação com vistas à reabilitação grupal e promoção da saúde psicossocial e espiritual.
2 DO VAZIO EXISTENCIAL À INSTAURAÇÃO DA LEI DA PALAVRA PARA A REALIZAÇÃO DE SENTIDOS
EM FAMÍLIA: INTERFACES DIALÓGICAS ENTRE FRANKL E RECALCATI
Em sua obra, “O médico e a alma: da psicoterapia à logoterapia”, Viktor Emil Frankl,
progenitor e fundador da logoteoria, revela que cada época tem sua neurose. Nessa conjuntura, os
tempos pós-modernos com sua globalização e tecnologização pulsante, têm promovido a
massificação de sociedades humanas, trazendo profundas crises sociais e, com elas, as denominadas
neuroses sociogênicas e existenciais (Frankl, 1946/2007). Por isso, desequilíbrios na
biopsiconoodinâmica de pessoas e famílias são constantes, atestando bases identitárias fragilizadas,
reféns, portanto, de uma fatídica modernidade líquida (Bauman, 2006/2007; Frankl, 1946/2016).
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Com efeito, o pensamento frankliano evidencia que os tempos (pós)modernos são marcados
pelo status quo da conformidade, da superficialidade, e da consequente perda de sentido pessoal,
decorrentes de movimentos e condicionamentos políticos, sociais e culturais que moldam o caráter e
o comportamento humano, alienando o homem às narrativas de consumo e de poder, e
embaraçando-lhe a caminhada. Diante disso, a neurose sociogênica configura-se como produto de
uma sociedade que hipervaloriza o êxito, o consumo, o prazer e o poder, mas que se desorienta em
relação ao sentido, privando o homo humanus de sua própria humanidade. Trata-se, portanto, de
um mal-estar coletivo – uma enfermidade de época que adoece a tudo e a todos, ameaçando a
coletividade e corroendo, de modo latente, as individualidades (Frankl, 1946/2007).
Nesse contexto, o vazio existencial entra em cena como etiologia da neurose noogênica,
pessoal e profunda, revelando-se como crise espiritual do ser humano, privando-o de sua genuína
cosmovisão e de sua inerente espiritualidade. A ausência de propósito na vida corrobora a frustração
da vontade de sentido, levando o homem a perder o feeling da existência e, por consequência, a
exilar-se no vácuo de sua própria existencialidade. Em outras palavras, o entorpecimento provocado
pelos princípios do prazer e do poder promove a desumanidade da humanidade, atestando - para
além das neuroses clínicas e pulsionais - que o desalinhamento entre a natureza humana e sua
ontologia (tri)dimensional acarreta, cabalmente, o que Viktor Frankl denominara de neurose
noogênica e/ou existencial (Frankl, 1969/2011).
Deveras, uma civilização terráquea que titubeia, - caotizada pela alienação e massificação
constantes, órfã de universais de sentido e marcada pela ausência da palavra fundante -, vagueia
moribunda pela existência, à espera de uma cura: porventura, a instauração da Lei da Palavra que
restaura e revigora a noodinâmica frankliana, ao realinhar a ontologia (tri)dimensional por meio da
educação para a responsabilidade e da autotranscendência? (Frankl, 1946/2016; Recalcati, 2022a).
Nesse horizonte, a Lei da Palavra, como alicerce fundante do desejo humano,
demasiadamente humano, emerge não apenas como princípio simbólico regulador para a cura de
uma vida sem sentido, mas também como campo interativo capaz de restituir o sujeito à sua própria
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palavra — restaurando, assim, o diálogo entre o sentido e o desejo do homo humanus (Frankl,
1946/2016; Recalcati, 2013/2022b, 2022a).
Destarte, em conexão com a voz fundamental que reverbera desde a cosmovisão judaica
antiga - especificamente no livro de Provérbios do rei Salomão, onde se lê: “ensina a criança no
caminho em que deve andar, e, mesmo quando envelhecer, não se desviará dele” (Provérbios 22:6,
Almeida Revista e Atualizada) -, questiona-se: pode a criança ensinar o “velho”? Tem ela, porventura,
a Palavra que lhe falta? Haverá ensino possível sem a instauração da Palavra, da Lei, da orientação
para o sentido? Decerto, o ensino coerente pressupõe o horizonte da Palavra instituída, a fundação
de princípios, o aguçar da consciência para a realização de sentidos. No entanto, na era da pós-
verdade, observa-se o eclipse da figura paterna: uma paternidade enfraquecida, desorientada e, não
raro, esvaziada de sentido (Frankl, 1969/2011, 1978/2005; Recalcati, 2013/2022b, 2014).
Sob tal cenário, torna-se evidente “a perda da diferença: sentido e falta de sentido na relação
entre gerações”, título da obra de Daniele Bruzzone (2014), que, ao cotejar autores como Viktor
Frankl e Massimo Recalcati, reflete sobre a infantilização paterna e a adultização pueril. Em suas
reflexões, Bruzzone destaca que as transformações socioculturais nas últimas décadas têm
fomentado a perda da alteridade entre pais e filhos. Isto é, a idealização simbólica da figura paterna
tem cedido seu lugar de destaque e pertinência à idealização exacerbada da infância, colocando em
risco, dessa forma, a própria dimensão infantil. Conforme a autora, com ênfase frankliana, a
possibilidade de educar para a responsabilidade tem sido comprometida pela proximidade ilusória,
entre a criança adultizada precocemente e o adulto que se infantiliza veementemente (Bruzzone,
2014).
Perante esse panorama, na hodiernidade, os filhos já não dispõem de padrões sólidos de
referência educativa baseados em um superego paterno consistente, mas encontram-se
(des)amparados por um novo superego engendrado pela era pós-tecnológica, que sistematiza e dita
as regras. Assim, as crianças são cooptadas por uma matrix digital, - criadas e educadas para servirem
ao consumo: para consumirem e serem consumidas -, filhas dos prazeres, das frivolidades virtuais e
de uma empedernida modernidade líquida (Bauman, 2006/2007; Prioste, 2013). Enquanto isso, os
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pais hipermodernos, também infantilizados pela matrix, aderem à mesma onda e se deixam conduzir
pelas trivialidades dos pequenos, incorrendo, desse modo, em negligência histórica, biopsicossocial e
espiritual diante do processo único, irrepetível e necessário da educação dos filhos.
Nesta conjuntura, revela-se um cenário de desorientação constante, de vazio existencial
inebriante e de falta de propósito vital. Afinal, trata-se de uma civilização que claudica como um
ébrio, sem saber quem é, de onde veio e para onde vai. Todavia, já se ouvem novos sinais: é preciso
retornar às origens; é preciso olhar para a história; é preciso o retorno de Ulisses (Bruzzone, 2014;
Frankl, 1977/1987; Recalcati, 2013/2022b).
Massimo Recalcati, importante psicanalista e um dos principais intérpretes contemporâneos
do pensamento freudiano e lacaniano, recorda que Ulisses, segundo a mitologia grega, foi rei da ilha
chamada Ítaca. Partiu de sua terra natal, deixando a esposa Penélope e seu filho Telêmaco (ainda
criança), aventurando-se pelos mares durante dezoito anos. Ulisses foi um dos heróis da épica
Guerra de Troia. Telêmaco, seu filho, ansiava pelo retorno do pai. Sua espera simboliza a sede da
restauração da Lei da Palavra e da ordem, frente aos Pretendentes que haviam invadido sua casa por
causa de Penélope, a mãe. Movido por esse anseio, Telêmaco parte em busca de notícias de Ulisses,
amadurecendo ao longo do caminho (Recalcati, 2013/2022b).
Essa narrativa mítica deu origem ao chamado “Complexo de Telêmaco” que, ao contrário do
“Complexo de Édipo”, - no qual o filho rivaliza com o pai movido pelo desejo transgressor da mãe –,
exprime o desejo do retorno do Nome-do-Pai, da idealização simbólica da figura paterna, para que a
Lei da Palavra, da ordem e do sentido, seja restaurada, exaurindo o caos (Recalcati, 2013/2022b).
Sob este prisma, a civilização pós-moderna - marcada pela erosão da alteridade entre pais e
filhos, pela banalização da diferença entre a adultez e a infância e por uma inversão de valores sem
precedentes - carece, com premência, da restauração da Palavra e da reconciliação da infância com a
paternidade que lhe é devida. Na perspectiva de Massimo Recalcati, uma infância destituída da
autoridade paterna em sua função de testemunho ético, privada do princípio da Palavra e de
horizontes de sentido, culminará em uma juventude apática, deprimida, e mergulhada no isolamento
da matrix tecnológica. Esse cenário fomenta o surgimento das novas formas do mal-estar, como as
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toxicomanias, e os transtornos alimentares (anorexia e bulimia), que sinalizam um novo desalento
juvenil: vidas desnorteadas e despojadas de seu propósito existencial (Frankl, 1977/1987; Recalcati,
2013/2022b, 2014).
Por isso, torna‑se necessário o retorno de Ulisses — ou ainda, o retorno daquelas antigas e
sábias palavras que ecoaram dos lábios do velho e lendário rei Davi, quando, ao aconselhar seu filho
Salomão, disse:
Eis que vou pelo caminho de toda a terra; esforça‑te, pois, e sê homem. Guarda a
observância do Senhor, teu Deus, para andares em seus caminhos e guardares os estatutos,
mandamentos, juízos e testemunhos, como está escrito na lei de Moisés, para que prosperes em
tudo quanto fizeres e para onde quer que te voltares (1 Reis 2:2‑3, Almeida Revista e Atualizada,
grifo nosso).
Ora, diante do supracitado, não se verifica a instauração da Lei da Palavra? Conforme
registram as tradições dos antigos hebreus, não foi Salomão um rei sábio e portentoso enquanto
guardou as palavras de Davi, seu pai? Todavia, no âmago de sua desolação — decorrente das
incongruências cometidas no termo de seu reinado —, não escreveu o “Eclesiastes”, obra de filosofia
espiritual que versa sobre a vaidade e a brevidade da vida?
Em suma, Ulisses e Telêmaco; Davi e Salomão; todos, nas vozes de pensadores da
contemporaneidade, como Recalcati, Frankl e Bruzzone, sussurram aos ouvidos da ébria civilização: é
preciso o retorno às origens; é preciso revisitar o passado; é preciso o retorno do pai; é preciso a
restauração da Palavra que ensina e do aguçar da consciência que orienta ao sentido.
3 A INSTAURAÇÃO DA LEI DA PALAVRA NO CONTEXTO CLÍNICO-PSICOEDUCATIVO DA FAMÍLIA
SILVA & SOUSA: APLICAÇÃO PRÁTICA DO ESTUDO DE CASO
Na era do vazio existencial e de crises sociogênicas profundas - quando a vida em família fica
caotizada pelo desvario do consumo e do individualismo sem precedentes, carente de sentido e da
Palavra fundante que modula e organiza o Desejo -, fica evidente que a prática clínica não se
encontra mais pura e simplesmente com sofrimentos psíquicos, mas com problemáticas que
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ultrapassam o espaço clínico e vão se alojar em dilemas socioculturais. Por isso, no presente século,
já não se carece de técnicas terapêuticas que contemplem padecimentos de ordem psíquica, mas sim
de valores atitudinais que impulsionem o desenvolvimento e aprimoramento de soluções educativas
que agucem a consciência humana para o bom manejo da Liberdade e da Responsabilidade que a
desafia (Benasayag & Schmit, 2003/2010; Frankl, 1969/2011; Recalcati, 2013/2022b, 2014).
Nessa conjuntura, surgem desafios novos aos trabalhos clínicos da atualidade, demandando
da Psicologia, enquanto Ciência e Profissão, uma abordagem de flexão psicoeducativa e existencial
que possibilite contemplar, tratar, educar e orientar o homo humanus frente aos impasses, embates
sociais e existenciais de sua época. Portanto, entra em cena tal estudo de caso, que será apresentado
em detalhes, bem como o processo terapêutico e psicoeducativo que culminou com a instauração da
Lei da Palavra no contexto psicossocial e espiritual da família abordada.
3.1 Descrição fenomenológica do caso
Nos idos de outubro da primavera de 2023, o Senhor Pedro (pseudônimo), empresário bem-
sucedido na cidade de Atlântida (nome fictício) – SC – Brasil, procurou o psicólogo e terapeuta João
(pseudônimo) para fins de cuidados essenciais ao seu grupo familiar. Constam nos relatos clínicos
que Pedro trouxe diversas queixas ao terapeuta, dentre as quais: ausência da autoridade paterna e
enfraquecimento da materna na governança familiar, desafetos entre pais e filhos, descontroles
emocionais em todos os integrantes e sentimento de desintegração familiar. Todavia, Pedro revelara
terem tudo para serem felizes – “prazeres e poderes” -, porém desalinhados ao sentido da vida.
Destarte, os sofrimentos estavam tornando a vida em família difícil de ser vivida e, por isso,
intervenções restauradoras eram indispensáveis.
O progenitor do clã relatara que, há muito, não conseguira exercer a autoridade paterna,
deixando-a a cargo da progenitora que, com saúde psicoemocional frágil, não dava conta de
administrar e conter os comportamentos disfuncionais da prole. Por consequência, os filhos
dominavam os próprios pais, fazendo o que queriam e tendo o que desejavam. O hiperconsumo
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dominava a família, o gozo desenfreado entorpecia o parco alicerce de limites e valores, o valor
estético destacava o individualismo e a tecnologia convertia os “presentes” em “ausentes”.
Outrossim, o Senhor Pedro lamentara sua ineficiência na educação dos filhos. Em ocasiões
propícias de exercício de atitudes corretivas à conduta da prole, autossabotava o processo educativo,
porquanto se compadecia em demasia da descendência, temendo magoá-la. Tal postura advinha de
lembranças da infância, quando era duramente repreendido pelo falecido pai, impedido, inclusive,
de expressar suas próprias lágrimas.
Por outro lado, a genitora buscava exercer a função de superego da família, visto que o
marido se embotava frente ao papel de educar os filhos. Com saúde psicoemocional delicada, ela
exasperava a si própria e à prole, desencadeando gritos, choros e descontroles emocionais,
promovendo um clima psicossocial denso e desagradável.
Por sua vez, a adolescente colaborava com o contexto conflituoso, demonstrando rejeição à
mãe e dificuldade em tecer um relacionamento harmônico com a progenitora. A propósito, dirigia
provocações à genitora ao mesmo tempo que demonstrava carecer do afeto desta. Entretanto, não
lhe faltava consideração, mas sim a maturidade para respeitar seu lugar no esteio familiar.
Adicionalmente, por ser diagnosticada com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade
(TDAH), presumia que a mãe deveria atender a todos os seus desejos e anseios, servindo-a como
uma espécie de “empregada”. Quando era repreendida, desesperava-se e revoltava-se por não ter
suas expectativas atendidas. Vale salientar que, embora atendesse mais às solicitações do pai,
permanecia intransigente em seus comportamentos, julgando-se a “rainha do lar”. Aliás,
frequentemente se indispunha com o irmão menor, não raro por disputas pelo acesso a “prazeres”.
Conquanto fosse uma “menina moça”, demonstrava atitudes imaturas e, por vezes, individualistas.
Valorizava o “eu” em detrimento do “nós”, mesmo que custasse a dor alheia.
Em contrapartida, o irmão, ainda criança, mostrava-se mais doce e simples, mesmo em
ápices de litígio. Muitas vezes, deixava-se dominar por intrigas, haja vista sua meninice. Em vez de
receber da “donzela” um cuidado fraterno, acabava sendo por ela delatado aos pais em busca de
atenção e elogios. Todavia, sua natureza agitada também se tornava motivo de perigo. Não raro se
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machucava em peripécias de menino. Os pais habitualmente o repreendiam com castigos – medidas
necessárias, não de caráter punitivo, mas com intuito educativo.
Em síntese, este é o breve cenário do caso antes do desafio empreendido: desafio
terapêutico de escuta, tratamento, orientação e ensino. Desafio que aguça a consciência para a
responsabilidade que busca significância em uma vida repleta de possibilidades de sentido.
3.2 Descrição metodológica do caso
O presente trabalho ancora-se na perspectiva de estudo de caso proposta por Yin, que o
concebe como uma técnica de pesquisa científica apta a investigar, de forma descritivo-
compreensiva, fenômenos psicossociais complexos, preservando suas peculiaridades globais e
possibilitando o esclarecimento de processos relevantes em seu contexto real (Yin, 1984/2001).
Nesse enquadre, este estudo configura-se como um estudo de caso único, de natureza qualitativa,
com delineamento clínico-psicoeducativo e existencial, de caráter descritivo-exploratório e
retrospectivo.
Sob esse aspecto, o contexto de aplicação deste estudo refere-se ao âmbito familiar. Desse
modo, uma única família foi abordada. O grupo possuía quatro integrantes: pai e mãe, ambos com
idade aproximada de 45 anos; uma adolescente com aproximadamente 15 anos; e um menino com
idade em torno dos 10 anos. O pai era industriário do ramo da construção civil e a mãe, do lar; no
entanto, ela, com frequência, também oferecia seus serviços e ajuda no cotidiano da empresa. Os
cônjuges eram casados conforme a legislação vigente no país e gozavam de boa convivência mútua.
A adolescente, esporadicamente, ajudava na empresa e, na maior parte do tempo, dedicava-se ao
lazer e aos estudos. O menino, por sua vez, dividia seu tempo entre o lúdico e os estudos. O
cotidiano da família era envolto em compromissos de trabalho, lazer, escola e, em menor
intensidade, de participação em uma comunidade cristã da qual faziam parte. O logradouro da
família situava-se na cidade de Atlântida (nome fictício), em Santa Catarina, Brasil; a residência e a
empresa eram muito próximas entre si. No que se refere aos atendimentos terapêuticos, estes
ocorreram na própria residência do grupo familiar.
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No que diz respeito ao desenho do processo terapêutico, os atendimentos ocorreram entre
outubro de 2023 e novembro de 2024. Ao todo, foram realizadas 29 sessões, com duração
aproximada de 120 minutos cada. As sessões foram organizadas de modo a contemplar o grupo
familiar como um todo. Em um primeiro momento, priorizaram-se encontros apenas com os pais; em
um segundo momento, realizaram-se sessões exclusivamente com os filhos; posteriormente,
passaram a ocorrer atendimentos com a família inteira.
Quanto à lógica de alternância, a depender do que emergia no setting terapêutico, houve
dias em que as sessões se iniciavam com os pais e se encerravam com os filhos, em atendimentos
separados. Do mesmo modo, houve dias em que as sessões se iniciavam com os filhos,
separadamente, e se encerravam com os pais, e assim sucessivamente.
No que tange ao objetivo geral das intervenções, este consistiu em restaurar a autoridade
parental comprometida, viabilizar a instauração da Lei da Palavra até então não exercida e favorecer
o aguçamento reflexivo da consciência para a responsabilidade, promovendo, assim, possibilidades
de realização de sentidos em família.
Com relação à abordagem teórico-clínica, buscou-se adotar um viés integrativo, haja vista a
complexidade do caso. Assim sendo, a Logoterapia e Análise Existencial frankliana ocupou lugar
primordial, visto que o desespero existencial e a crise de sentido acossavam a família. Ademais, a
psicoeducação para a responsabilidade constituiu estratégia seminal para promover a importância da
Lei da Palavra como base fundamental para o uso da liberdade com integridade.
A Psicanálise também ocupou um espaço significativo, porquanto a teoria psicossexual
freudiana serviu como ponto de partida para facilitar o entendimento da constituição psicodinâmica
dos sujeitos envolvidos. Além disso, profícuas contribuições lacanianas contemporâneas, como as de
Massimo Recalcati, vieram somar ao processo, pois sua perspectiva sobre a “evaporação do pai” e a
“crise da Lei” ofereceu subsídios indispensáveis à instauração da Lei da Palavra como força motriz
para uma educação efetiva e responsável.
Aspectos teóricos-clínicos da Terapia Cognitivo-Comportamental também foram utilizados.
Em algumas sessões, houve a necessidade de promover reestruturação cognitiva, visando-se ao
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enfraquecimento de pensamentos automáticos e disfuncionais que, por vezes, se opunham à
adequada modulação de cognições, emoções e comportamentos de integrantes da família,
prejudicando, dessa forma, o bom andamento da terapia.
Por fim, a literatura bíblica igualmente foi empregada. Os livros de 1 Reis, Salmos, Provérbios
e Eclesiastes atribuídos ao rei Salomão, pelo seu alto teor histórico-filosófico e formativo,
favoreceram a compreensão de temáticas tangentes à terapêutica psicoeducativa e existencial. Tal
procedimento foi possível pelo fato de a liderança familiar demonstrar afinidade com os
ensinamentos bíblicos.
No que concerne aos procedimentos de registro e análise, vale salientar que anotações pós-
sessão eram realizadas sob a forma de relatórios manuscritos, com a finalidade de conservar
informações para pesquisa futura e facilitar uma visualização panorâmica do caso, subsidiando
tomadas de decisão mais assertivas para o sucesso do processo clínico-educativo. Quanto à analítica
do caso, o viés hermenêutico-interpretativo, à luz de Frankl, de Recalcati e da hermenêutica bíblica,
constituiu a base para uma compreensão mais aprofundada do contexto situacional.
No tocante aos aspectos éticos e de salvaguarda da privacidade de terceiros, é de suma
importância ressaltar a anonimização do grupo familiar abordado. Portanto, adotou-se um nome
fictício para a cidade de origem, bem como pseudônimos para o líder da família e para o terapeuta
envolvido. O nome da progenitora e dos filhos foi omitido, e as idades foram aproximadas, de modo
a preservar a identidade dos participantes. Ademais, a relação do psicólogo com os integrantes do
grupo familiar, durante todo o processo terapêutico, foi pautada na preservação do sigilo e no
respeito aos direitos e à dignidade humanos. Em síntese, este estudo segue as diretrizes éticas da
instituição de referência e da revista, com especial atenção à confidencialidade e à proteção da
identidade dos participantes.
3.3 Análise, discussão interpretativa do caso e resultados
“Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e
cheguem os anos dos quais venhas a dizer: não tenho mais contentamento [...]” (Eclesiastes 12:1,
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Almeida Revista e Atualizada). Ademais, “honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento
com promessa; para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra” (Efésios 6: 2-3, Almeida
Revista e Atualizada). Essas palavras ecoaram desde o setting terapêutico familiar em questão. Suas
reverberações modelaram o gozo, dando-lhe borda, introduzindo a falta e organizando o desejo em
um espaço parental onde, há muito, a animalidade do gozo desmedido atestara o vácuo existencial,
bem como a frouxidão da Lei da Palavra e a evaporação da função paterna, do Nome‑do‑Pai (Frankl,
1977/1987; Recalcati, 2013/2022b, 2022a).
Nessa conjunção, quem é o “Criador” de quem fala o rei Salomão em Eclesiastes, senão o “Eu
sou o que sou”, que, segundo a antiga tradição hebraica, se manifestara a Moisés desde a sarça
ardente, revelando o Nome divino que, numa leitura psicanalítica, pode ser pensado como figura do
Nome‑do‑Pai? Aliás, não seria ele o “significante mestre” que instaura Deus como figura paterna,
operando a castração simbólica de Moisés e inscrevendo‑o na posição de filho e discípulo,
preparando‑o para sua derradeira trajetória rumo à libertação do povo hebreu do cativeiro egípcio
antigo? (Recalcati, 2022a). Ou ainda, quem é o “Criador” senão o próprio rei Davi, progenitor de seu
filho Salomão, que o criara e o instruíra antes de sua morte, dizendo: “[…] esforça‑te, pois, e sê
homem […]”? (1 Reis 2:2‑3, Almeida Revista e Atualizada). Ora, o “Criador” ao qual se referem esses
escritos é aquele que se revela enquanto pai, a figura paterna simbólica que cria, cuida, limita e
educa; aquele que, por meio da Lei da Palavra, conforme Recalcati, institui o sujeito como $
(barrado), isto é, no horizonte da Palavra que corta, proíbe e delimita o gozo exacerbado, mas
fomenta o desejo a partir do vazio e da falta (Recalcati, 2013/2022b, 2014, 2022a).
No entanto, quando o eclipse da função paterna se torna evidente, a ausência de um desejo
fundante torna-se uma constante, pois a falta de uma Lei da Palavra que estrutura o desejo e coloca
limites está na base das crises familiares e sociogênicas atuais.
Por isso, é nesse cenário que se descortina a problemática da família investigada, quando o
progenitor, em busca de ajuda, alega ao terapeuta não conseguir exercer a função paterna tão
necessária. Sua apatia frente ao gozo desenfreado dos filhos revela sua incapacidade de governo da
própria casa, comprovando o que Bruzzone e Recalcati anunciam: adultos evaporados e crianças, tal
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como adolescentes, governando famílias, promovendo-se assim confusões intergeracionais e colapso
dos esteios simbólicos (Bruzzone, 2014; Recalcati, 2013/2022b).
Nesse contexto, Bruzzone (2014) salienta que tais confusões intergeracionais se devem a
transformações socioculturais no status quo da pós-modernidade, implicando um processo de
adultização precoce da infância, da adolescência e de infantilização da vida adulta. Ademais, ela
reflete o que o psiquiatra Pietropolli Charmet defende sobre o narcisismo da juventude:
[...] o narcisismo dos jovens deve-se à transformação dos códigos afetivos familiares, em
particular a passagem da família ética para a família afetiva, ou seja, da família que assumiu como
sua principal tarefa a transmissão de normas e valores, para a família que considera seu principal
dever proporcionar afeto e segurança. Esta família “maternalizada” perdeu o universo simbólico
paterno, ou seja, tudo o que se refere a norma, limite, responsabilidade, transcendência. Os pais
tornaram-se companheiros, mães amigas e confidentes, [mas não conselheiros (as)] [...] (Charmet, s.
d., como citado em Bruzzone, 2014, p. 67, grifo nosso).
Na obra “Educação em Viktor Frankl: entre o vazio existencial e o sentido da vida”, Miguez
(2015) corrobora Frankl ao testemunhar que a perda dos universais de sentido que, por gerações,
fundamentaram a “família ética” (evocando Charmet, s. d., como citado em Bruzzone, 2014, p. 67)
torna-se raiz do vazio existencial e da falência das possibilidades educativas e de sentido. Isso, por
sua vez, facilita o surgimento da “família afetiva” (evocando Charmet, s. d., como citado em
Bruzzone, 2014, p. 67), que baseia seus esteios no “pensamento mole da condição pós-moderna, [em
que] nada parece ter mais sentido” (evidenciando Forte, 2003, como citado em Miguez, 2015, p. 10).
Portanto, “as crianças, [adolescentes] não podem correr riscos, não podem cair, não podem
magoar-se, [não podem ser frustradas], não devem sofrer, não devem cansar, devem ser
continuamente defendidas e protegidas [...]” (Bruzzone, 2014, p. 62, grifo nosso), por pais
evaporados e infantilizados que temem “perder” a amizade dos filhos e suas companhias. Esta
constatação, com efeito, retrata o cenário familiar investigado, ao espelhar‑se no recorte
sintomático do pai de família, que alega resistir em corrigir os filhos por temer magoá‑los.
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Deveras, isto revela uma perspectiva dissonante em relação ao que é desenhado nas palavras
do filósofo rei Salomão, quando, ao escrever seus provérbios, declara: “[...] o filho sábio alegra a seu
pai, mas o filho louco é a tristeza de sua mãe” (Provérbios 10:1, Almeida Revista e Atualizada). Ora,
sob um olhar psicanalítico freudiano-lacaniano, não é possível depreender, nas entrelinhas, que a
sabedoria do filho depende do pai que ensina? Há sabedoria filial, porventura, sem educação
paternal? Não se pressupõe, por detrás do filho sábio, um superego firme e consistente, uma Lei da
Palavra que se inscreve através do Nome‑do‑Pai? Em suma, pode haver ensino que promove a
sabedoria em meio à resistência paterna que se infantiliza perante a negligente adultização dos
filhos, temendo magoá-los?
Por outro lado, não é a figura materna a detentora natural de um singular potencial de
modulação (harmonização) das emoções dos filhos? Ou deveria ela assumir, sozinha, a função de um
superego familiar, sem a contraparte paterna que inspira, sustenta e fortifica o ensino diligente? Ora,
o “filho louco” que é a tristeza de sua mãe (realçando Provérbios 10:1, Almeida Revista e Atualizada)
pode também indicar uma mãe exasperada que, em sua própria “loucura” — aqui entendida como
desajuste emocional — acaba por inscrever marcas de desorganização na matriz psicoexistencial dos
filhos. Sumariamente, pode haver afeto filial sem o devido afeto e amor maternal?
Por conseguinte, o ocaso do Nome-do-Pai na pós-modernidade impulsiona a juventude do
terceiro milênio à desorientação subjetiva e social (ótica recalcatiana) ou à neurose noogênica-
existencial (ótica frankliana), tendo por correlatos sintomatológicos o gozo desmedido como
analgésico para a carência do testemunho paterno que orienta, a indiferença ao desejo fundante, a
apatia, as ansiedades, a depressão, o isolamento social, a dependência tecnológica, a bulimia, a
anorexia e toda sorte de sofrimentos psicoexistenciais que se configuram como “o novo mal-estar
juvenil” que emerge da nostalgia de um pai evaporado. Assim, faltando o testemunho e a Lei que
inscrevem o desejo como herança paterna transmissível, a juventude arrisca-se entre a violência
hedonista, a anestesia afetiva e, por consequência, uma vida sem sentido (Frankl, 1946/2007;
Recalcati, 2013/2022b).
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Destarte, retomando Forte (2003, como citado em Miguez, 2015, p. 10), “se, para a razão
adulta, tudo tinha um sentido, para o pensamento mole da condição pós-moderna nada parece ter
mais sentido [...]”, pois a razão varonil perdeu a razão de ser e se infantilizou perante o
hiperindividualismo e o narcisismo da modernidade líquida (Bauman, 2006/2007), confirmando a
máxima de Marx e Engels de que tudo o que é sólido se desmancha no ar (Marx &
Engels,1848/2010).
Por isso,
aqueles que hoje mais precisam recuperar a autoconsciência, no entanto, não são as crianças
[e os adolescentes], mas adultos, que não sabem lidar com a assimetria necessária para qualquer
relação educativa, e muitas vezes não sabem oferecer um testemunho crível de que, apesar dos
limites, é possível levar uma vida que tenha sentido. Possivelmente, o verdadeiro desafio
pedagógico, neste momento não tem nada a ver com a educação dos jovens, mas com a reeducação
dos adultos. A começar por nós mesmos (Bruzzone, 2014, p. 67-68, grifo nosso).
Nessa conjuntura, conforme o pensamento frankliano, o antídoto para a perda dos universais
de sentido que, por sua vez, refletem o enfraquecimento paterno e simbólico na perspectiva
recalcatiana, é a educação para a responsabilidade e autotranscendência, pois promove a
restauração da Palavra e do desejo, tendo como finalidade a realização de sentido e a reintegração
simbólica e ética do sujeito.
Por esta via,
a “logo-educação” representa um desafio extremamente oportuno, porque implica uma
transição muito importante: da educação para a autorrealização, da educação para a
autotranscendência, da educação para a autonomia, da educação para a interdependência, da
educação para o sucesso, da educação para o limite, da educação como satisfação das necessidades
para a educação como cultivo de valores. Isso, na minha opinião, era o que Frankl pretendia, quando
disse que a educação não deveria “transmitir conhecimento”, mas sim, “aguçar a consciência”
(Bruzzone, 2014, p. 67, grifo nosso).
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Assim, à luz dessas reverberações teóricas, torna-se necessário afirmar que o caminho
terapêutico adotado para a reintegração do esteio familiar em questão foi, única e inequivocamente,
uma “educação para a responsabilidade”, condição sine qua non para a realização de sentidos em
família.
Logo, no que tange ao processo de restauração da paternidade evaporada no clã em
referência, procurou-se trabalhar com a liderança familiar (pai e mãe) a importância de conhecerem
em profundidade aspectos históricos, filosóficos e psicológicos de uma economia/dinâmica familiar
sustentada por uma parentalidade responsável, visto que a inversão de funções parentais eleva a
probabilidade de conflitos e rivalidades no seio familiar e, por consequência, de sua desintegração.
Para tanto, inspirada em Viktor Frankl, a prática terapêutica buscou auxiliar e orientar os
genitores na compreensão de conceitos fundamentais da Logoterapia e Análise Existencial, tais como
autodistanciamento, autotranscendência, valores criativos, valores de vivência e valores de atitude,
com vistas ao aguçamento da consciência e, por correspondência, à restauração da Palavra, do
Nome-do-Pai.
Outrossim, vale salientar que o reposicionamento paterno também foi favorecido, em
complemento à proposta logoterapêutica, por meio da Terapia Cognitivo-Comportamental,
mediante reestruturação cognitiva de pensamentos disfuncionais, bem como das emoções correlatas
e de comportamentos autossabotadores no contexto da terapêutica familiar.
Quanto ao reposicionamento dos filhos, procurou-se desconstruir a adultização negligente
da infância e da adolescência, buscando situá-los na trilha educativa da “família ética” (evocando
Charmet, s. d., como citado em Bruzzone, 2014, p. 67), desestimulando o gozo desenfreado e
fomentando a organização do desejo fundante a partir da falta. Desse modo, uma dinâmica funcional
e genuína no clã foi reestabelecida: a volta às coisas mesmas (lembrando Husserl, 1901/2012).
Em resumo, após este empreendimento de reposicionamento terapêutico familiar, fica
evidente que a infância e a juventude pós-modernas, reféns da “família afetiva” (evocando Charmet,
s. d., como citado em Bruzzone, 2014, p. 67), lançadas à diversão do gozo e à anestesia afetiva,
suspiram pelo retorno de Ulisses. Isto é, anseiam pelo Nome‑do‑Pai que retorna, trazendo a Palavra
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fundante, o Desejo como substituto do Gozo e o Testemunho que aviva a esperança por um legado:
a educação para a autotranscendência e a educação para a responsabilidade.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que é a família humana senão a menor célula de uma sociedade que, sem ela, vê seu
corpus social se desintegrando? Na pós-modernidade, a falência da “família ética” (destacando
Charmet, s. d., como citado em Bruzzone, 2014, p. 67) tem atestado uma desintegração familiar
constante, em grande parte resultante da globalização e de uma tecnologização pulsante, que
fragmentam individualidades inconstantes, gerando crises de identidade, a evaporação da Palavra
fundante e o mau presságio de inflexões sociogênicas desumanizantes (Bauman, 2006/2007;
Recalcati, 2013/2022b, 2022a).
Portanto, o clã aqui analisado constitui uma ilustração dessa condição preocupante, sintoma
inequívoco da “família afetiva” (salientando Charmet, s. d., como citado em Bruzzone, 2014, p. 67)
em busca de sentido, mas atravessada pela perda de universais de sentido, o que abriu precedentes
para a instituição do vácuo existencial estonteante, neurose de massa de nossa época e o mal do
século (des)civilizatório (Frankl, 1946/2007).
Ao mesmo tempo, este estudo de caso testemunha que tal cenário não é irremediável. O
percurso terapêutico-familiar empreendido evidenciou que, quando a família se dispõe a revisitar
criticamente sua própria história, a confrontar seus pactos de silêncio e a reconfigurar seus lugares
simbólicos, torna-se possível restaurar, ao menos em parte, a função paterna enfraquecida e
reinscrever a Palavra fundante no laço familiar. O reposicionamento do pai e da mãe como
referências éticas e não apenas afetivas, a saída dos filhos da adultização negligente e a possibilidade
de reorientar o eixo do gozo para o desejo mostraram que a clínica, quando atravessada por uma
intencionalidade educativa, pode operar como laboratório privilegiado de reconstrução de vínculos e
de reabilitação da responsabilidade.
Nesse sentido, a “educação para a responsabilidade” e a educação para a
autotranscendência, inspiradas na Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Frankl, configuraram-se
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como eixos terapêuticos de primeira grandeza. Ao convocar cada membro da família a sair de si em
direção ao outro e a um sentido que o transcende, a intervenção descrita contribuiu para converter o
vácuo existencial em espaço de interrogação fecunda, reabrindo a possibilidade de uma vida
orientada por valores criativos, vivenciais e de atitude. Em diálogo com a crítica psicanalítica ao
ocaso do Nome-do-Pai e com a denúncia sociológica da modernidade líquida, a prática clínica com
este clã mostrou que a responsabilidade, longe de ser mero imperativo moral abstrato, pode tornar-
se experiência concreta, vivida no cotidiano, como forma de resistência às inflexões sociogênicas
desumanizantes de nossa época.
Como estudo de caso único e de natureza qualitativa, a presente reflexão não autoriza
generalizações apressadas para todas as configurações familiares da pós-modernidade. No entanto,
oferece uma vinheta clínica densa que pode iluminar situações análogas e suscitar novas
investigações acerca da articulação entre função paterna, vácuo existencial e processos educativos
no contexto familiar. Estudos futuros, seja por meio de múltiplos estudos de caso, seja por desenhos
quasi-experimentais, poderão aprofundar a eficácia e os limites da “educação para a
responsabilidade” como dispositivo terapêutico, bem como explorar o diálogo fecundo entre
logoterapia, psicanálise e abordagens cognitivo-comportamentais na clínica com crianças,
adolescentes e seus responsáveis.
Em última instância, o caso aqui apresentado permite entrever que, mesmo sob o signo do
mal do século (des)civilizatório, ainda é possível reacender, no interior da família, brasas de uma
ética da responsabilidade e de uma pedagogia da autotranscendência. Se é verdade que a infância e
a juventude pós-modernas, reféns da “família afetiva”, suspiram pelo retorno de Ulisses, também é
verdade que, quando a Palavra fundante se deixa novamente ouvir e o testemunho adulto se torna
digno de crédito, abre-se, para além do vácuo, a promessa de um legado: o aprendizado de viver
responsavelmente diante de si, do outro e do mundo.
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